segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Henri Nouwen sobre Solidão

As palavras abaixo falaram profundamente comigo hoje, já que ando morando sozinha:

Sobre Solidão*

...A solidão é o lugar da grande luta e do grande encontro – a luta conta as compulsões do falso ‘eu’ e o encontro com o Deus zeloso que se oferece como substância da nova individualidade... Não gostamos de depender dos outros e, sempre que possível, tentamos demonstrar a nós mesmos que temos a situação controlada e podemos tomar as próprias decisões.  Esta autoestima tem muitos atrativos... No entanto, o lado obscuro dessa autoestima é a solidão, o isolamento e o medo constante de não sermos capazes de nos realizar na vida.  ... Nossa solidão revela-noa um vazio interior que pode ser destrutivo quando entendido, mas repleto de promessas para quem consegue tolerar sua doce dor.

... Quando ficamos totalmente sós com nós mesmos, ficamos tão próximos da revelação da nossa solidão humana primordial e tao temorosos de sentir o isolamente onipresente, que fazemos de tudo para nos ocupar, para continuar o jogo que faz acreditar que, afinal, tudo está bem.  John Lennom diz: ‘Sinta a própria dor’; mas como isso é difícil!

É difícil ver pessoas que sofrem de solidão, muitas vezes agravada pela falta de atenção no círculo familiar.  Elas procuram uma solução final para suas dores e veem um novo amigo, um novo amor ou uma nova comunidade com expectativas messiânicas... À primeira vista, é realmente espantoso o modo com que homens e mulheres que têm relacionamentos pertubadores com seus pais, irmãos ou irmãs, atiram-se cegamente a relacionamentos com consequências duradouras, na esperança de que, daquele momente em dianto, tudo será diferente.

... Se sente uma solidão muito grande e uma necessidade intensa de contato humano, precisa ser extremamente cauteloso.  Questione-se se essa situação vem de Deus e por que e onde Deus quer que você esteja.  Deus o ampara e lhe dá paz, mesmo quando há sofrimento.

Sua tarefa espiritual é... descobrir a origem dessa solidão.

... Esta é uma busca importante, porque o leva a discernir algo de bom sobre você mesmo.  A dor da sua solidão pode ter origem na sua vocação mais profunda ... seu chamado para viver inteiramente para Deus.  Assim, sua solidão pode ser revelada como o outro lado do dom divino que você recebeu.  Uma vez que, dentro do seu ser mais profundo, você se conscientize desta verdade, poderá considerar a solidão não somente mais tolerável, mas até proveitosa.  O que antes lhe parecia essencialmente doloroso pode transformar-se num sentimento que, embora de dor, abra para você um caminho para um conhecimento ainda maior de Deus.”

* Palavras de Henri Nouwen, compilados por Ricardo Bitun no livro, Henri Nouwen de A a Z (Editora Vida), p. 374-377.  Citações dos livros, Espiritualidade no Deserto, Mosaicos do Presente, O Sofrimento que Cura, Crescer – Os Três Movimentos da Vida Espiritual e A Voz Íntima do Amor.  

sábado, 30 de janeiro de 2010

Declaração de Manhattan

Www.manhattandeclaration.org - assinado por 413,607 até hoje.  Traduzido do inglês norte-americano por Rachel Kornfield; revisão Elisa Corrêa.


Manhattan Declaration Summary
Resumo da Declaração de Manhattan

The official text of the Manhattan Declaration is the copyrighted English version which can be downloaded at the Manhattan Declaration website.

O texto oficial da Declaração de Manhattan é a versão norte-americana encontrada no site www.manhattandeclaration.org.

Cristãos, quando vivem de acordo com os ideais mais elevados da sua fé, defendem os vulneráveis e fracos e trabalham sem cessar para proteger e fortalecer instituições vitais da sociedade civil, começando com a família.  Nós, os Ortodoxos, Católicos e Evangélicos, nos unimos nesta hora para re-afirmar verdades fundamentais sobre justiça e o bem comum e para clamar aos nossos compatriotas, tanto crentes como não-crentes a ajudá-nos a defender estes valores.  Estas verdades são (1) a natureza sagrada da vida humana, (2) a dignidade do casamente como uma união conjugal entre marido e esposa e (3) os direitos de liberdade de consciência e religião.  À medida em que estas verdades podem ser consideradas essenciais à dignidade humana e ao bem-estar da sociedade, são invioláveis e não-negociáveis.  Estão, porém, cada vez mais sob forte ataque de poderosas influencias internas e externas em nossa cultura e assim somos compelidos a falar ousadamente em sua defesa e nos comprometer a honrá-los inteiramente independente da pressão trazida contra nós e contra nossa instituições para abandoná-las ou comprometé-las.  Fazemos este compromisso não-partidário, como seguidores de Jesus Cristo, o Senhor crucificado e ressurreto, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. 

A Vida Humana
As vidas daqueles que ainda não nasceram, dos debilitados e dos idosos são cada vez mais ameaçadas.  Enquanto a opinião pública se movimenta numa direção pró-vida, forças poderosas e determinadas trabalham para expandir o aborto, pesquisas destruidoras de embriões, suícidio assistido e eutanásia.  Apesar de que a proteção do fraco e vulnerável é a primeira obrigação do governo, muitas vezes este poder contribui à causa que o Papa João Paulo II chamou de “cultura da morte”.  Nós nos comprometemos a trabalhar sem cessar para a proteção de cada ser humano inocente em todas as fases do desenvolvimento e em todas as condições.  Nos recusamos a permitir que nós ou nossas instituições sejam implicadas em tomar vidas humanas e apoiaremos de toda possível maneira aqueles que tomam com consciência a mesma decisão. 

Casamento
A instituição do casamento, já afligida pela promiscuidade, infidelidade e divórcio, enfrenta o risco de ser redefinida e subvertida.  Casamento é a originial e mais importante instituição para manter saúde, educação e o bem-estar de todos.  Quando o casamento enfraquece, patologias sociais surgem.  O impulso de re-definir casamento é um sintoma, ao inves de ser uma causa, da erosão de uma cultura casamentária.  Reflete uma perda de entendimento do significando de casamento tanto como embutido nas nossas leis civis como também nas nossas tradições religiosas.  É crítico que o impulso seja resistido pois, permití-lo seria abandonar a possibilidade de restaurar um entendimento sadio de casamento e junto com ele a esperança de re-edificar uma cultura saudável casamentária.  Trancaria no lugar as falsas e destruitivas crenças sobre casamento que o levem a ser considerado apenas resultado de romance e a satisfação de desejos adultos em vez de ser intrinsicamente baseado no caráter único e valor de atos relacionais cuja importância é estruturada sobre a aptidão de gerar, promover e proteger a vida.  Casamento não é uma “construção social” mas sim uma realidade objetiva – a junção de marido e esposa numa união comprometida – que a lei deveria reconhecer, honrar e proteger. 

Liberdade de Religião
Liberdade de religião e direitos de consciência enfrentam graves riscos.  A ameaça a estes princípios fundamentais é evidente nos esforços para enfraquecer ou eliminar proteções conscientes de instituições e profissionais de saúde e em estatutos antidiscriminatórios que são usados como armas para forçar instituições religiosas, ONGs, empresas e caridades a aceitar (ou até facilitar) atividades e relacionamentos que julgam serem imorais ou perderem seus direitos.  Ataques contra liberdade religiosa são ameaças graves não só contra indivíduos mas contra instituições da sociedade civil incluindo famílias, caridades e comunidades religiosas.  A saúde e o bem-estar de tais instituições providenciam uma proteção indispensável contra um poder exagerado do governo e são essencias ao florescimento de quaisquer outras instituições – incluindo o próprio governo – do qual a sociedade depende. 

Leis Injustas
Como Cristãos, acreditamos na lei e respeitamos a autoridade de governadores terrestres.  Consideramos como um privilégio especial o direito de viver numa sociedade democrata onde as proclamações morais da lei são ainda mais fortes por virtude do direito de todos os cidadãos a participarem do processo político.  Porém, mesmo em regimes democraticos, leis podem ser injustas.  Desde o começo, nossa fé nos ensina que a desobediência civil é requerida na face de leis gravemente injustas ou que pretendem requerir que façamos aquilo que é injusto ou de outras maneiras imoral.  Este tipo de lei falta com o poder de amarrar a nossa consciência porque não pode proclamar nenhuma autoridade além do simples exercício do desejo humano. 
Assim sendo, que seja conhecido que não atuaremos de acordo com nenhum comando que nos compele ou compele às nossas instituições a participar ou facilitar abortos, pesquisas destruidoras de embriões, suicidio assistido, eutanásia ou qualquer outro ato que viole o princípio da dignidade profunda, inerente e igual de todo membro da família humana.
Além do mais, que seja conhecido que não agiremos de acordo com nenhuma força que abençoa parcerias sexuais imorais, lhes tratando como casamento ou seu equivalente, ou deixam de proclamar a verdade, como a conhecemos, sobre moralidade, casamento e família. 
Além do mais, que seja conhecido que não seremos intimidados a nos silenciar ou aquiescer ou violar nossas consciências por nenhum poder na terra, seja cultural ou político, independente das consequências a nós mesmos.  Renderemos completamente e sem restrições a César aquilo que é de César.  Mas em nenhuma circunstância renderemos a César aquilo que é de Deus. 


Sobre Haiti (Leonardo Boff)

Esta é a reflexão teológica mais profunda que já vi sobre a situação em Haiti (também anexo):

Lamento junto a Deus pelo Haiti

Por Leonardo Boff*

 

http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2794147.xml&template=4187.dwt&edition=14015&section=882


Há uma via-sacra de sofrimento com estações que nunca acabam no pequeno e pobre Haiti. Sofrimento no corpo, na alma, no coração, na mente assaltada por fantasmas de pânico e de morte. Há também muito sofrimento em todos os humanos que não perderam o senso mínimo de humanidade e de solidariedade. Desta compaixão universal nasce uma misteriosa comunidade que anula as diferenças, as religiões e as ideologias, que antes nos separavam e até nos dividiam. Agora só conta a comum humanitas absurdamente maltratada e que deve ser socorrida.

Em cada haitiano que sofre soterrado ou que morre de sede e de fome, morremos um pouco também todos nós junto com eles. Finalmente somos irmãos e irmãs da única e mesma família humana. Como não sofrer?

Mas há também um sofrimento profundo e dilacerante nas pessoas de fé que proclamam que Deus é Pai e Mãe de bondade e de amor. Como continuar a crer? Queixosos, nos perguntamos: “Deus, onde estavas quando se formou aquele tremor raso que dizimou os teus filhos e filhas mais pobres e sofridos de todo o extremo Ocidente? Por que não intervieste? Não és o Criador da Terra com seus continentes e suas placas tectônicas? Não és Pai e Mãe de ternura, especialmente daqueles que são como teu Filho Jesus os injustamente crucificados da história? Por quê?”.

Este silêncio de Deus é aterrador porque ele simplesmente não tem resposta. Por mais que gênios como Jó, Buda, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz e outros tivessem arquitetado argumentos para isentar Deus e esclarecer a dor, nem por isso a dor desaparece e a tragédia deixa de existir. A compreensão da dor não suspende a dor, assim como ouvir receitas culinárias não faz matar a fome.

O próprio Jesus não foi poupado da angústia do sofrimento. Do alto da cruz, lançou um brado lancinante ao céu, queixando-se: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.

Damos razão a Jó, irritado com seus “amigos” que lhe queriam explicar o sentido de sua dor: “Vós não sois senão charlatães, não sois senão médicos de mentira; se ao menos vos calásseis, os homens tomar-vos-iam por sábios”. Mas não podemos calar. A dor é demasiada e a noite, tenebrosa. Precisamos de alguma luz.

Mesmo sem luz, continuamos a crer com o coração partido, porque estamos convencidos de que o caos e a tragédia não podem ter a última palavra. Deus é tão poderoso que pode tirar um bem do mal. Apenas não sabemos como. Esperançosos, fazemos uma aposta nesta possibilidade que não deixa nossas lágrimas serem vãs. Ademais, cremos que Deus pode ser aquilo que nós não compreendemos. Acima da razão que quer explicações, há o mistério que pede silêncio e reverência. Ele esconde o sentido secreto de todos os eventos também daqueles trágicos.

Identifico-me com o poema de um grande argentino que perdeu um filho na repressão militar, Juan Gelman:

“Pai, desce dos céus, esqueci as orações que me ensinou minha avó, pobrezinha, ela agora repousa, não tem mais que lavar, limpar, não tem mais que preocupar-se, andando o dia todo atrás da roupa, não tem mais que velar de noite, penosamente, rezar, pedir-te coisas, resmungando docemente.

“Pai, desce dos céus, se estás, desce, então, pois morro de fome nesta esquina, não sei para que serve haver nascido, olho as mãos inchadas, não tem trabalho, não tem, desce um pouco, contempla isto que sou, este sapato roto, esta angústia, este estômago vazio, esta cidade sem pão para meus dentes, a febre cavando-me a carne, este dormir assim, sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido.

“Te digo que não entendo, Pai, desce, toca-me a alma, toca-me o coração, eu não roubei, nem assassinei, fui criança e em troca me golpeiam e golpeiam, Te digo que não entendo, Pai, desce, se estás, pois busco resignação em mim e não tenho e vou encher-me de raiva e estou disposto a brigar e vou gritar até estourar o pescoço de sangue, porque não posso mais, tenho rins, e sou um homem, desce.

“Que fizeram de tua criatura, Pai? Um animal furioso que mastiga a pedra da rua? Pai, desce.”

Que o Pai desça sobre os haitianos com seu amor.


* Teólogo, professor e membro da Comissão da Carta da Terra
lboff@leonardoboff.com